COLÔMBIA
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Cartagena, Santa Marta, Minca, Cali e Manizales
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... de Letìcia o avião faz escala em Bogotá antes de aterrar nas mais bela cidade colonial da América do Sul... e, quiçá, do mundo!
Cartagena de índias...
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Colibri de Harrán


Fui à Colômbia para fotografar pássaros. Mais de 1900 espécies, umas raras, outras ameaçadas ou em vias de extinção, endémicas ou migrantes e todas exóticas!...



As pessoas torciam o nariz quando falava que ia para a Colômbia. A imagem americanizada da Colômbia é uma imagem distorcida pela comunicação social sensacionalista de defesa do "normalismo" que mostra aquele país como um lugar de guerrilha e droga ignorando a população real, a maioria, que nada tem a ver com este assunto a não ser, ser sua vítima.

Deparei-me com um povo acolhedor, sofrido, simpático e com um país que é dos mais lindos do mundo. Para além da biodiversidade animal com espécies novas a serem descobertas frequentemente, o seu acervo de plantas nem sequer está ainda totalmente catalogado.

O meu objectivo não era fazer nenhuma reportagem político-social da Colômbia. Os cartéis de droga, depois de Pablo Escobar, tinham saída da moda nos noticiários sensacionalistas, embora a droga continue a correr em catadupas, e as FARC tinham assinado um acordo de cessar fogo com o Governo, recusado em poucos dias por um referendo. é natural que tivesse curiosidade em saber porquê.
Mais uma vez não podia confiar nos noticiários enviesados e cegos do politicamente correcto normalizante. Por isso fiz algumas perguntas de circunstância, sem o assédio fariseu do repórter que tem de mostrar trabalho.
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Muralhas de Cartagena


As FARC são uma organização revolucionária cujas raízes remontam aos anos que precederam a década de sessenta do século passado em que se acreditava transformar a sociedade, errada assente num roubo ancestral que remonta aos fins do nomadismo, numa sociedade decente!
Inspirados mais no sucesso da revolução castrista do que no modelo soviético que já era alvo de críticas internas, vários movimentos surgiram um pouco por todo o lado e sobretudo na América Central e do Sul, consideradas o "quintal" dos EUA e onde estes punham e dispunham, a seu belo prazer, com intromissões, invasões, deposições e nomeações de dirigentes seus submissos em defesa do seu modelo de submissão e exploração dos povos de todo o mundo. Foi o período da guerra no Vietname, da deposição e morte de Allende, o único comunista democraticamente eleito, ao tempo, e da Vitória de Castro nas barbas da América.
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Painel à entrada da Baía dos Porcos, Cuba


Aprendida a lição com a humilhação castrista, na Baía dos Porcos, os EUA não facilitaram mais. às FARC, nascidas neste contexto de esplendor libertador, os EUA contrapuseram um exército informal, tolerado pelo governo colombiano e financiado pelas multinacionais, chamado de "paramilitares", um bando bem organizado de mercenários, facínoras que semeavam o terror pelas populações rurais.
O povo simples do interior, das montanhas nem sequer distinguiam uns de outros e as suas atrocidades eram com frequência atribuídas às FARC pela imprensa do sistema. Era um combate em duas frentes. No terreno e no psicossocial para desacreditar as FARC. Mas também é possível, que com o andar dos tempos, o agudizar da luta sem sucesso, a sucessão das gerações, a pureza dos ideias de sessenta se tenha degradado e as FARC tenham feito algo menos louvável. Não ponho as mãos no fogo!.
Depois, o jornalismo arregimentado, fez o resto!... o descrédito das FARC... até à rendição e assinatura dum acordo humilhante e mesmo assim recusado pelo povo. Porquê? Era o que eu queria saber.
O Franco, o meu guia da Helicónia, deu-me a primeira pista.
".. aqui em Letícia queriam alojar 8000 guerrilheiros com casa e trabalho garantidos!... ora muitos de nós não temos uma coisa nem outra!... não queremos cá mais gente para nos roubar aquilo que não chega para nós!"

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Painel à beira da estrada de Viñales, Cuba
As ideologias há muito que morreram. A, já chamada, "híper normalização" matou-as. As pessoas perderam a capacidade de sonhar e lutar por um mundo melhor. Já só estrebucham pela sobrevivência num mundo hostil cujas raízes do mal lhes escapam.
E a proprietária da pousada achava que os fazendeiros tinham medo que "ELES" (entenda-se as FARC) chegassem ao governo por via legal e lhes tirassem as propriedades.
Duas razões opostas, em cujo intervalo ideológico lutavam as FARC, conjugam-se aqui para anulá-lo. E sem intervalo não há ideologia!



Fiquei em Getsmani, no que seria a barbacã da cidade amuralhada. Aqui se situa a vida social e nocturna da cidade e os alojamentos mais acessíveis.
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Puerta del Reloj
O centro começa na "Puerta del Reloj" e é circundado por uma muralha impressionante quase intacta em toda a sua circum-extensão e do cimo da qual o pôr-de-sol sobre o mar das caraíbas na direcção do Panamá é de uma beleza estonteante.
A cidade é a peça de arquitectura colonial mais bem conservada e bonita que já vi. Num país pobre não há uma casa em ruínas, uma fachada abandonada, tudo pintado de fresco, reluzente e exemplar!... Com os seus balcões e sacadas floridos são um espectáculo raro e encantador.
Não sei que segredo esta cidade guarda que comparada com outras preciosidades como Ouro Preto, Mariana ou Parati, no Brasil, as deixa a perder de vista em encanto. Para não falar nas barbaridades que se fazem, um pouco por todo o lado, com a construção de caixotes rectangulares em substituição ou coabitando com arte arquitectónica.

é um sentimento de outros tempos caminhar pelas ruas duma cidade assediada, cercada, tomada, arrasada e martirizada várias vezes... que sempre renasceu das cinzas, qual Fénix do Novo Mundo!...
Era a porta de saída do ouro, prata e pedras preciosas desse roubo colossal que a Europa fez por todo o mundo chamado de colonização em que para além roubar, destruiu culturas e civilizações com a maior das barbaridades e crueldade de que os piores exemplares desta espécie são capazes.
Possuída pelos espanhóis, que roubavam e destruíam a região, foi cobiçada pelos ingleses que a cercaram e saquearam várias vezes.
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Catedral de Cartagena
O mito do "El Dorado" nasceu aqui. Um pouco mais a leste na zona da Sierra Nevada, a tribo dos Muíscas possuía uma cultura florescente assente nos ornamentos festivos e funerários abundantes em ouro. A ignorância, amplificada pela ganância sem limites dos ladrões de então levou-os ao delírio de imaginarem que existiria, algures nas montanhas, um reino em que tudo era de ouro incluindo os montes que circundavam a cidade. A busca do "El Dorado" passou a fazer-se com o fanatismo da busca do Graal. O resultado foi o extermínio das tribos indígenas que se opunham ao avanço dos conquistadores e ao saque dos seus objectos sagrados que eram profanados e fundidos para chegarem à coroa na Espanha, se o barco não se afundasse ou não fosse assaltado pelos ladrões (corsários - nome dado aos mercenários de marinha de então) ingleses.
O reino do "El Dorado" nunca foi encontrado mas, mesmo imaginário, reproduziu-se de uma forma mais fecunda que se fosse verdadeiro. Hoje existem imensos "El Dorados" na Colômbia: avenidas, ruas, hotéis, aeroportos e até um Parque Natural El Dorado, no lugar imaginário do "El Dorado" da lenda, na encosta da Sierra Nevada.

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Castelo de San Felipe
Com uma história truculenta, os principais monumentos de Cartagena são militares para além de todo o centro que é um monumento gigantesco protegido pelas muralhas cuja arquitectura militar culmina nas Bóvedas, antigos depósitos de armamento com paredes de oito metros de espessura e hoje centro de artesanato e atracção turística. Vários fortes protegiam a cidade localizados em morros estratégicos o mais importante de todos o Forte de San Felipe, um maciço gigantesco de pedra e argamassa que impressiona mesmo à distância.

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Ventana de la denuncia
Os inimigos de Cartagena, ou melhor, dos poderes instalados, não eram apenas externos. Havia também os inimigos internos. Esta história dos inimigos internos levar-nos-ia longe. Não sei se é lugar adequado tratar disso aqui. Direi apenas que quem roubava aqui os indígenas eram os herdeiros dum outro roubo ancestral, aquele que divide os-que-têm d'os-que-não-têm, dentro da mesma comunidade, e dos quais os que "têm" têm que defender-se.
é claro que os livros de história com a visão enviesada d'os-que-têm nos ensinam a odiar aqueles que se opuseram aos detentores do poder e a ajudar na sua punição!. Aqui essa tarefa consistia em denunciar os infractores ao Santo Ofício, rotulados de hereges, esta denúncia servia vários propósitos. Imagine-se um vizinho indesejado, um concorrente em negócios ou em questões afectivas ou a simples inveja de outrem, o poder que esta prática punha nas mãos de um psicopata!... e há, sempre houve, mais do que se imagina!...
Bastava pôr um papelinho, anónimo, na janela da denuncia na parede exterior do Tribunal do Santo Ofício e a tortura e o sadismo dos inquisidores fazia o resto. Dos seus interrogatórios nunca saíam inocentes.

Quando se fala em caraíbas, o imaginário colectivo cria logo uma fantasia de luxo tipo "Côte d'Azur" tropical. Quem vai reforça essa fantasia nos hotéis e ressorts onde fica sem contacto com as Caraíbas reais. O chamado desenvolvimento turístico é uma panaceia do capitalismo mais recente. Ganham os grandes operadores, ganha a indústria hoteleira que emprega um número restrito de locais e perdem todos os outros com a degradação do meio ambiente, a perda de lugares que foram seus e, pior que tudo, com o aumento do custo de vida.
Os povos das Caraíbas são pobres, vivem mal, estão subdesenvolvidos. Foram explorados pelo colonialismo antigo; são explorados pelo capitalismo moderno.
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Museo del Oro


Os guias de viagens estão repletos de paraísos inexplorados de sonho nesta costa caribenha da Colômbia: Um desses paraísos é a península de "La Guira", acerca da qual me dizia a dona do hostal numa conversa, mais uma vez, acerca da guerrilha: "... há fome na Colômbia!... em La Guira, onde a miséria é extrema as crianças não têm comida nas escolas e o governo fez uma reportagem para desmentir isso com um prato de comida que punham à frente duma criança, gravavam, não deixavam comer e punham o prato à frente de outra... e outra para mostrar que todas tinham comer!..."... " ora... esto no debia hacerce!" comentou.
Crianças com fome e a morrer de subnutrição há milhões neste mundo cruel de sociedade errada. mas essa crueldade é resultado da indiferença, da omissão, da privação. é feita por ausência. Mostrar comida a uma criança esfomeada, não a deixar comer e mostrar ao mundo que a fome não existe é uma crueldade que julgava não ser possível. Não sou ingénuo e sei bem onde a crueldade humana é capaz de chegar mas contra um inimigo. Não a sabia tão bárbara contra inocentes!



Uma carrinha de transporte alternativo pegou-me na porta do hostal e levou-me (quase) à porta do hostal em Santa Marta. Percorremos a costa, junto ao mar, atravessámos povoados miseráveis de barracas e casotas improvisadas de aspecto confrangedor. Crianças brincavam no meio do lixo e imundície... e lembrava-me de Cuba, onde a revolução aqui sufocada, tinha vencido. Cuba não tinha nenhum dos dois extremos presentes aqui: riqueza opulenta; pobreza extrema.
A paisagem é luxuriante e um regalo para os olhos para quem tenha o dom da percepção selectiva e consiga não ver os povoados e os povos. Depois de Barranquilla atravesssa-se a Ciénaga de Santa Marta e cadeia de montanhas da Sierra Nevada começa a desenhar-se no horizonte e a levantar-se do mar.
Nas faldas desta montanha a cidade de Santa Marta, no local da primeiro instalação, em 1525, de colonos nesta região, foi a base de exploração da Sierra Nevada e da busca do "El Dorado".
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Arte de rua em Santa Marta
daqui, Rodrigo de Bastidas, primeiro, e Guimenez de Quesada, depois, partiram para as suas expedições de extermínio e roubo dos indígenas que até receberam bem os seus hóspedes e só tarde demais perceberam que tinham metido o inimigo em casa. Da tribo dos Tayronas, dominante nesta região, resta o nome num parque à beira mar e alguns objectos no "Museo de Oro" que escaparam à fundição espanhola.
Quando hoje admiramos a grandeza da civilização europeia, agora decadente, não imaginamos a quantidade de crueldade, barbárie, chacina, sangue e lágrimas em que assenta a sua prosperidade. Nem que é por já não haver Tayronas, Muíscas, Incas, Maias e tantos outros que esta civilização criada em cima do roubo externo, entrou em crise e só lhe resta o roubo interno que acelerará a sua ruína!




Ofuscada pelo desenvolvimento de Cartagena, Santa Marta perdeu esplendor. àparte a Quinta de San Pedro Alejandrino, onde viveu, no fim da vida, e morreu Simón Bolívar, com seus jardins que são uma atracção, Santa Marta é uma cidade de pouco interesse. Para além do Museo de Oro pouco mais atrai a atenção do visitante apesar da tentativa actual de recuperação de algum esplendor sobretudo na promoção das suas praias.
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Quinta de San Pedro Alejandrino
Tenho passado por quase todos os pontos quentes do tráfico de droga na América do Sul. Nunca fui molestado, incomodado ou sequer abordado pelos seus agentes. Deslocava-me na orla da cidade a caminho do hostal, cruzava-me com um vendedor de rua que distribuía panfletos acerca de qualquer coisa quando ao estender-me a mão para entregar o panfleto me segredou:"oro, plata, piedras, armas!... "
Nunca pego estes papéis, em lugar nenhum, nem olho os seus agentes nos olhos e aqui fiz o mesmo... e esta foi a primeira vez que recebi uma proposta do género. E isto pode ser revelador dos problemas de Santa Marta zona que esteve sob o domínio dos paramilitares.

Diz-se que Santa Marta não é ponto de destino de visitantes. Santa Marta é ponto de passagem para outras paragens nas imediações. Também para mim o foi. Foi uma base para subir à Sierra Nevada em busca do "El Doroado". Este situa-se acima de Minca, uma cidadezinha encantadora à beira do rio do mesmo nome com ares de lugar de outro mundo! A ausência de transporte público faz dela um lugar de, apenas, turismo alternativo, um daqueles lugares onde ainda se pode ir e respirar o clima local e tentar sentir e ver como vêem os locais.
O seu principal interesse reside no turismo de natureza, especialmente observação de aves e é ponto de apoio a quem demanda a Reserva "El Dorado" e San Lourenzo.
A Minca chega-se de táxi mas dali em diante só Jipe ou mototáxi numa estrada precária com inclinação superior a 45 graus , enlameada, com ressaltos e desníveis de dezenas de centímetros de pedras molhadas e escorregadias. A dada altura a mota caiu e tivemos que fazer o resto a pé.
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A caminho de San Lorenzo


Em Minca não há ladrões... "os paramilitares mataram-nos todos!... " dizia-me o condutor do táxi. Esta expressão fez-me lembrar uma outra que vi uma vez numa carrinha na Bermuda:
"Don't steal, government hates competition" (não roubar, o governo odeia competição).
Os paramilitares ocuparam esta zona e eliminaram a concorrência, dos quais me dizia mais tarde o Ricardo "... eram o exército das multinacionais americanas.. para se defenderem das socialização das FARC... ...tudo isto começou com a Union Patriótica que ia ganhar as eleições mas quando elas chegaram dos seus candidatos não havia nenhum vivo!... mataram-nos todos".

Para o Joe, a propaganda da imprensa afecta ao regime é que punha o povo contra as FARC. Os turistas eram intimidados e informados para evitar as zonas ocupadas por correrem riscos de segurança mas o problema era ao contrário. Turistas vindos da fronteira do Panamá tinham dificuldades em sair da zona porque eram tão bem tratados que até casa e comida lhes ofereciam!... ".. o que o governo não quer é que se saiba isso!..."

Minca!.. um lugar acolhedor de turismo alternativo. é provável que tenha mais que isso.. mas "isso" só encontra quem procura.
Um dia ao jantar, na esplanada das traseiras, alcandorada sobre a torrente tempestuosa do rio Minca, senta-se à minha mesa, no restaurante, uma esgrouviada, comprida, loira, feia, ainda jovem com ar de mochileira. Conversámos. Era holandesa e andava por ali a fazer nem sei bem o quê. Andava sozinha, o marido chegava daí por uns 15 dias e dali, informou-me, que ia para Palomino. Não sei o que há em Palomino mas pareceu-me que estava a testar se eu estaria interessado em ir também. Se assim era, errou o alvo e ficou a falar sozinha!...
Minca ainda tinha algo para dar-me.
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Colibri


No dia seguinte fui almoçar ao António, um italiano radicado em Minca há muitos anos.
O lugar era idílico. Não sou apreciador de comida italiana mas aquele risoto de marisco não ficava a dever nada àquele que comera em Santa Marta no Donde Cucho.

O tempo ameaçava chuva e naquele momento permiti-me o meu momento de entrega aos sentidos...
O rio Minca corria incessante no seu leito pedregoso contorcendo-se como que para ser mais rápido. Na encosta da outra margem passavam pessoas que pareciam jogar às escondidas aparecendo e desaparecendo por entre a folhagem tropical. Como eram bonitas assim despidas de personalidade na sua função de figurantes!...
Os seres humanos são animais bonitos vistos à distância!...

Cerrei os olhos e deixei-me embalar por aquele muralhar incessante das águas ...
Esqueci-me de mim, de quem era ou se era mesmo algo mais que um sopro de moléculas etéreas imanando dum grupo de matéria efémero.
A chuva começava a cair e juntava a sua melodia criadora à da sua irmã fluvial.

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Flor Selvagem
Estava só, estou sempre só. Estou sempre mesmo quando tenho pessoas à minha volta!
Mas aqui não tinha e não tive que perder aquilo que é impartilhável: sensações transcendentes que quase sempre se perdem quando há gente à volta.
Agora a chuva era intensa e eu neste paraíso terreno, só meu, algo que os deuses não prometem nem dão a ninguem!... vivia um dos momentos extraordinários da minha vida.
Se sempre me senti um elemento da natureza, agora estava em comunhão com ela antes da desintegração total deste agregado de matéria.

A chuva tornou-se torrencial como no dia da minha chegada.
Já se viam menos pedras no rio mas o meu sombreiro da lona continuava a resistir.
Não sei por quanto tempo...

Tinha descido à beira rio. Acordei do meu sonho horas depois... ia fazer as malas e voar para Cali...

Em, 24/12/2016






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Cali e Finca Alejandria
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Em Santa Marta comprei o voo para Cali no "chek in" sem aumento de preço. Os bilhetes de voos internos são bastante baratos na Colômbia, comparados com o que se passa no Brasil ou Portugal onde a especulação está idexada à procura.
Cheguei de noite e o motorista do taxi teve dificuldade em localizar o meu hotel situado numa praça bem central da cidade!


A imagem europeia de Cali, forjada e veiculada pela imprensa sensacionalista é de um cartel de droga numa visão redutora duma realidade completamente diferente. é como se de Portugal vissemos a Itália unicamente como uma "família" mafiosa.
A máfia existe, infelizmente, e faz muito estrago mas a Itália é bem mais que isso. Também Cali.
Cali!?... diziam as pessoas espantadas... sei o que lhes passava pela cabeça.

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Orquídea Ipífita
Cali é uma cidade tranquila. Andei por ali de máquina fotográfica na mão. Fiz fotografias sem preocupações, "birdwatching" no parque da cidade... por sinal um lugar agradável e bem cuidado.

Não é uma cidade espectacular do ponto de vista de património arquitectónico mas possui a sua jóia da coroa, o único monumento de arte mudéjar da America Latina, a Torre anexa ao mosteiro de San Francisco.
O "Museo del Oro", tesouro artístico desta cidade, à semelhança de outras, guarda com orgulho o que resta da rapina colonial. O património exposto merece bem uma visita atenta. Aqui se encontram, bem guardadas, as preciosidades que restam da cultura Calima.

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Museo del Oro
Fui a Cali para visitar a Finca Alejandria, um santuário de "birdwatching" a uns vinte quilómetros dali, na famosa zona do KM 18 (quilómetro dezoito).
Floresta húmida, a 2600 metros de altitude, de inclinação acentuada a ponto da maior parte da sua superfície ser impenetrável, é atravessada pelas nuvens que intercalam com espaços de sol passando do nevoeiro cerrado a sol brilhante váriias vezes ao dia. Um grupo já ali se encontrava quando cheguei mas eram observadores de passagem acompanhados de guia próprio. Eu era o único hóspede. Ia para ficar.
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Finca Alejandria
Três dias naquele lugar com os proprietários, Raul e Elsa, simpáticos mas um pouco reservados. As sequelas da guerrilha ainda eram ali bem visíveis na prudência com que abordavam o assunto.
A Finca, uma casa de madeira de dois pisos e boa qualidade era o que restava duma propriedade maior de que parte fora alienada. A observação de aves é, ao que parece, o seu único recurso já que, zona protegida, a capacidade de intervenção do proprietário é limitada. E era visível a azáfama com que buscavam ideias de como rentabilizar o seu filão. A obsrvação de aves, "birdwatching" na versão que começa a internacionalizar-se, é uma indústria poderosa na Colômbia e tem muita procura mas também muita capacidade de oferta e a lista de espécies observáveis na Finca é extensa.
Em três dias vi algumas dezenas, fotografei milhares de exemplares e passei três dias num lugar de sonho por um preço inimaginável... $COP 90000.00 por dia!

Voltei a Cali para tomar o transporte para Manizales, meu próximo destino. Aproveitei para almoçar num restaurante de referência que se chamava "Cali Viejo" mas que agora se chamava "La Hacienda" e por isso foi difícil de encontrar. Localizado no Bosque Municipal, uma zona luxuriante dos arredores de Cali, fez jus ao seu "pedigree". Dado o meu aspecto informal de viajante nómada tive receio que o General fardado à porta me barrasse a entrada. Mas como cheguei de taxi, talvez isso tivesse abonado a meu favor.
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La Hacienda


Lugar de luxo, as mesas espalham-se por várias zonas abertas da propriedade com espaço para respirar e muita privacidade. A minha mesa situava-se num extremo junto ao grande parque verdejante onde os pássaros cantavam e se divertiam.
Não sou dado a mordomias mas há sempre lugar para excepções... e esta valeu a pena pois passei ali a tarde toda naquilo que gosto, comer (bem) e observar e fotografar pássaros.

Mas já estava ali, apenas, só em parte... na minha cabeça já se agitavam fantasmas acerca da próxima experiência na área de Manizales...

Em, 24/12/2016






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Manizales, Rio Blanco e Nevado del Ruiz
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De Cali a Manizales é um "tiro de besta", subindo o agradável e rico "Valle de Cauca". Manizales, ao contrário de Cali, era uma ilustre desconhecida até ter descoberto que era o ponto central para visitar três lugares de referência de "birdwatching": Reserva Tinamou, Reserva Natural Rio Blanco e Nevado del Ruiz.
Nã:o cheguei a conhecer bem Manizales. Situada na chamada "zona cafetera", local acidentado entre os 2000 e os 2600 metros de altitude a cidade é das mais invulgares que conheço. Os desníveis entre ruas vizinhas chegam a atingir dezenas de metros mais parecendo que existem duas cidades sobrepostas em que de cima se vê o que se passa em baixo.
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Manizales


Tinamou ficou fora de questão ao consultar os preços "on line". A escolha recaiu num hotelzinho que se dizia ecológico nos arredores de Manizales: "La Juanita". O taxista nem sabia onde era nem conhecia o lugar e o GPS do meu telefone só funciona bem quando não preciso dele!.. rs. De pergunta em pergunta lá chegamos. Era na cumeada duma montanha que terminava ali com vista em quase 360º.
O meu quarto, separado das instalações principais, todo em bambu, parecia um quartinho de bonecas tão pequenino que quase não podia virar-me lá dentro!... até os sanitários pareciam ter sido feitos para um ocupante liliputiano... mas tão acolhedor que depressa esqueci que era tão pequenino.

A vista deslumbrante sobre a encosta abrupta abria-se num horizonte ondulante de montes e vales a perder de vista e, dali mesmo, podia fotografar pássaros que se empoleiravam nas árvores vizinhas cujas copas ficavam à altura da janelinha!...
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La Juanita
Subscreveram-me uma visita ao Rio Blanco mas apenas chegado descobri que podia mudar-me para ali por uns dias... e foi nas idas e vindas para buscar a bagagem que o Ricardo falava comigo aquelas conversas avulso sobre a guerrilha, os paramilitares, a política em geral e, então, a determinada altura exclama: "... tudo isto começou quando a Union Nacional se preparava para ganhar as eleições... todas as sondagens os davam como vencedores... mas quando as eleições chegaram dos seus candidatos não havia nenhum vivo!... mataram-nos todos!."



Estava-se, então, nos tempos em que a revolução cubana triunfara, Allende ganhara as eleições no Chile, havia lutas armadas um pouco por toda a América Latina e a "caça às bruxas" pelo sistema dominante herdeiro do roubo ancestral, estava ao rubro. Excepto Cuba, e mais tarde o Vietname, todos estes movimentos foram sufocados. Allende foi derrubado pela CIA e os grupos revolucionários, um pouco por todo lado, ou caíram no impasse, como a Colômbia, ou viraram a casaca como na Nicarágua, por exemplo.
Com a ajuda da imprensa do sistema o branqueamento de todos estes crimes contra o desenvolvimento da humanidade foi consumado, valorizados como a forma certa da evolução social que levou aos dias de hoje actualizando a minha previsão aquando da queda do muro de Berlim. Então, quando toda a gente festejava pensando que lhes tinha saído a lotaria eu exclamei: "dias negros esperam quem trabalha em todo o mundo!". Esses dias chegaram.



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Rio Blanco
A Reserva Natural de Rio Blanco é uma área de acesso condicionado dado que é ali que se faz o provisionamento de água para a cidade.
O lugar é famoso por alojar várias espécies de antpitta, uma ave terrestre, um pouco tímida que vive escondida entre a folhagem, sendo uma delas endémica.
O Carlos, guia residente, uma jóia de pessoa, mostrou-me várias bem como outras espécies raras, algumas tão raras e furtivas, dentre elas uma de que dizia: "esta só eu, um alemão que passou por aqui e vc temos uma foto", para o que teve que armar toda uma encenação e chamá-la para ser fotografada através duma pequena abertura feita na folhagem.

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Tapaculo Ocelado
Numa área de acesso condicionado, o aparecimento duma figura que se movimentava com o à-vontade de alguém da casa causou a minha curiosidade. Um dia acompanhou-nos na nossa saída de campo. Era a Terê (abreviatura de Teresa, nome de que, mais tarde, confessou não gostar). Era corpulenta. máscula e com uma voz rouca a condizer. Tomei-a por alguém da Reserva mas tratava-se apenas duma espécie de "free lance" de birdwatching. Eu tencionava ir ao Nevado del Ruiz e estava em discussão com o preço com um outro guia e, assim como quem não quer a coisa, foi-me proposto ir com ela por um preço inferior.
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Frutero Verdinegro


O Nevado del Ruiz é um vulcão situado a cerca de 5000 metros de altitude mas aos 4100 existe um posto de controlo de acesso muito condicionado. Do ponto de vista do "birdwatching" é a zona até aqui que é habitat de espécie que só se encontram a estas altitudes. Aqui a raridade e variedade sobrepõem-se à quantidade mas espécies como o "Rainbow-bearded Thornbill", um colibri raro e muito bonito, só encontram aqui.
A 4100 metros de altitude respirar já exige algum esforço e caminhar ainda mais... não aconselhável a quem tenha problemas respiratórios ou cardíacos.

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Zorzalito Overo
Descemos pelas Caldas del Ruiz, uma zona termal, mais abaixo a 2600 metros com um parque onde se faz "birdwatching" mas chovia, chovia, chovia tanto que prejudicou os resultados. A Terê tossia que nunca mais acabava mas não parava de fumar. Falámos do tabaco, dos seus malefícios e ela encolhia os ombros como que confessando a sua incapacidade de lutar... que a a última invectiva que tive foi radical: "gosto demasiado do meu corpo para lhe fazer uma maldade tão grande!".
Percebi que foi a única expressão que lhe causou alguma impressão. Gostaria que tivesse resultado mas não tenho como controlar o resultado. Perdi o contacto que me deu para um dia irmos visitar a Reserva de Tinamou.

Saí de Manizales num "mini-bus", que me disseram ser expresso, com destino a Bogotá... a seguir...

Em, 06/04/2017






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Bogotá
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De Manizales a Bogotá tem que atravessar-se duas cordilheiras de montanhas com o vale do rio Magdalena pelo meio.
Fui "sequestrado" à chegada à Rodoviária, não por um angariador (estou vacinado) mas pelo funcionário duma empresa de camionagem. Quando esperava no guichet vazio par comprar o meu bilhete. A "buseta" estava a partir directa para Bogotá e levou-me pela porta lateral até ela, meteu a minha bagagem na bagageira e mandou-me ir pagar o bilhete, que ajustou por COP$45000,00, pelo lado oposto da bilheteira. Chegado ali queriam cobrar-me 50000,00. Ameacei ir-me embora mas a minha bagagem já não saía da bagageira. Pagos os 45000,00 fui para o transporte mas a porta não estava aberta nem havia sinais de saída próxima. Esperei... reclamei o meu dinheiro... esperei... e nada.
O veículo esperava carga mínima para arrancar. Horário?... qual horário?!...

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Flor Silvestre
Finalmente partiu com poucos passageiros e assim fez metade do percurso pelo caminho mais directo a Bogotá. Atravessámos a cordilheira oriental por uma estrada de montanha aceitável mas, ao chegar a Mariquita, onde começou e recolher passageiros, virou a sul e, num povoado chamado Armero, virou a leste por uma estrada de montanha precária que passava em todas as povoações recolhendo passageiros.
Atravessámos o rio Magdalena e subimos a cordilheira leste por um percurso em circunvoluções que quase não se saía do mesmo lugar em deslocação horizontal. Assim, na vertical, continuava a ver o vale do rio Magdalena várias horas depois de o ter atravessado.

As horas passavam. Tinha saído de Rio Blanco de manhã. Chegava a noite e a "buseta" a fazer recolhas e entregas de passageiros ao domicílio pelos recantos mais recônditos da montanha. Com a aproximação a Bogotá as recolhas superavam as entregas e não se recusava serviço. Os lugares acabaram, a lotação era ilimitada!...
Havia gente em cima de gente com bagagem em cima de bagagem que ia e cima de gente!...
A minha mochila com material pesado e sensível era comprimida contra a lateral.
Reclamei... alto e bom som... aquilo não era um expresso, que tinha sido enganado... para esbarrar com a indiferença total.

Despejado ao virar duma esquina em Bogotá, desejaram-me boa viagem.
Não agradeci... se aquilo tinha sido uma boa viagem eu não queria mais!...
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Flor Silvestre


Cheguei a Bogotá noite dentro!
Só no dia seguinte tomei o pulso a uma cidade recuperada duma reputação de crime e droga, fazendo jus à origem da sua criação. O hotel era numa zona junto à montanha de Monserrate, que ladeia a cidade a leste, e mantinha as portas fechadas dia e noite. Mas tive mais problemas lá dentro do cá fora.
Reservado pelo Booking. Boa pontuação. As instalações correspondiam à oferta mas as pontuações do Booking são baseadas na opinião dos clientes e estes têm níveis de percepção e exigência diferentes. Não são feitas com base num padrão estabelecido com carácter objectivo alheio às percepções individuais.
Ao preço anunciado acrescentaram taxas tornando produto mais caro que outros melhores na concorrência. E o serviço de muito má qualidade.



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Altiplano de Bacatá
Situada na bacia altiplana da antiga savana de Bacatá habitada por uma das tribos mais desenvolvidas da época pré-colombiana, dos Muíscas, aquilo que era então um habitat está hoje ocupado pela cidade.
Tudo começou com a chegada de Gonçalo de Quesada na sua busca gananciosa de ouro, em 1538, com a fundação de Santa Fé de Bogotá, junto à capital muísca de Bacatá.
Depois, com a crueldade, perfídia e barbaridade, já conhecidas, foi expandir, ocupar e chacinar os indígenas até à sua substituição. Nos lugares de culto indígena surgiram igrejas construídas com a santidade da tortura, roubo e morte. De tudo isto resultaram algumas obras de arte conseguidas com "sangue, suor e lágrimas".



Esta humanidade não aprende mesmo nada com o tempo excepto avançar na sua senda para o extermínio. Primeiro dos outros, depois de si própria. Bacatá há cinco séculos, Palestina hoje são exemplos dessa prática com toda a expansão ultramarina pelo meio.



A cidade tem um aspecto limpo, cuidado e desenvolvido não se distinguindo de qualquer outra do chamado mundo desenvolvido. Apesar dos seus 2600 metros de altitude, a terceira mais alta da América Latina, não sofri de doença de altitude.
Visitei igrejas, o inevitável museu do ouro com belíssimos exemplares de arte indígena, escapada à rapina colonial, de várias tribos locais incluindo os Muíscas.
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Museo de Oro
Na Praça Bolívar acontecia um concerto de Salsa, muito valorizada na Colômbia, por um conjunto cubano com desempenhos de dança em mini-palcos dentro do palco. Espectáculo de qualidade!
Não aprecio cidades (a menos que tenham aquele toque mágico de encantamento que as torna mais que um conjunto de paredes e tectos que abrigam muita gente!). Fui a Bogotá por descargo de consciência Valeu a pena!...

O avião para Letícia, a descida a Manaus e o regresso a casa são o prelúdio de outra história. Aquela que contarei... a seguir. Antes disso o Vietname perfila-se no horizonte!...






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